segunda-feira, 25 de junho de 2012

Leitura da noite passada

A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa

7 comentários:

Luis Eme disse...

quando se consegue viver na delicia nua da inocência aberta, o mundo engana-nos mas deixa-nos mais felizes.

beijinhos Maria Maio

Mar Arável disse...

Ramos Rosa sempre

a interrogar-nos

heretico disse...

delicia nua...

belo.

beijo

mfc disse...

Deliciosamente ingénuo e revolucionário.

Maria P. disse...

Tive oportunidade de conhecer António Ramos Rosa, foi/é um prazer.
Acreditem.


Beijinho a todos*

cuotidiano disse...

Como já "opinei" milhões de vezes, António Ramos Rosa e Herberto Hélder são os dois "monstros" da poesia portuguesa! Aliás, este poema demonstra-o...

Só espero que o próximo poema da "casa" seja do outro "monstro".

Enfim, na verdade já não espero nada a não ser da poesia...

Maria P. disse...

Cuotidiano,

de acordo.
A poesia não (me) basta.